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Reitor Fabrício Berton Zanchi fala sobre os projetos para a UFSB - "Uma instituição de ensino superior precisa combinar visão estratégica com capacidade de execução"

  • Escrito por Heleno Rocha Nazário
  • Publicado: Quarta, 24 de Junho de 2026, 17h32
  • Última atualização em Sexta, 03 de Julho de 2026, 09h13
  • Acessos: 2168

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Desde 2018 o senhor atuou como decano do Centro de Formação em Ciências Ambientais. Antes da UFSB, foi pesquisador, docente e gestor na UFAM. Como percebe que essa experiência influi na sua visão de gestor universitário?

Minha formação acadêmica e minha experiência em diferentes universidades federais me ensinaram que uma instituição de ensino superior precisa combinar visão estratégica com capacidade de execução.

Na UFAM, participei da consolidação de um campus em expansão no interior da Amazônia. Na UFSB tive a oportunidade de contribuir com a criação de cursos, programas de pós-graduação e estruturas acadêmicas, além de atuar na gestão de uma unidade acadêmica durante quase uma década.

Essa trajetória me deu uma compreensão muito prática dos desafios enfrentados por estudantes, técnicos e docentes. Aprendi que a boa gestão universitária é aquela que escuta, planeja, constrói consensos. É aquela que transforma problemas em oportunidades de desenvolvimento institucional.

 

O cenário orçamentário das IFES ainda não é de reinvestimento forte no ensino superior. Como o senhor avalia a margem de manobra da UFSB nesse contexto?

O orçamento continua sendo um desafio para todas as universidades federais. Houve avanços nos últimos anos, mas ainda estamos distantes das condições necessárias para atender plenamente às demandas de expansão e consolidação das instituições. Para dar uma ideia, consultando o quadro previsto de servidores da lei de criação da UFSB, ainda temos de preencher mais de 200 vagas de docentes e mais de 150 de técnicos administrativos em Educação. Ter esse pessoal conosco abrirá um horizonte de muitas inovações para nossa universidade.

Nossa estratégia passa por três frentes. A primeira é defender ativamente mais recursos junto ao Governo Federal e ao Congresso Nacional. A segunda prioridade é melhorar a eficiência da gestão interna, qualificando processos, reduzindo desperdícios e melhorando nossos índices de qualidade educacional. Esse esforço deve estar alinhado à dimensão social da universidade, fortalecendo seu papel institucional e sua contribuição para o desenvolvimento do território no qual está inserida. E a terceira é ampliar a captação de recursos por meio de projetos, parcerias institucionais e cooperação nacional e internacional, sempre respeitando a autonomia universitária e o caráter público da instituição.

Aliás, a permanência estudantil é um dos maiores desafios quando se tem pouco orçamento. Democratizar o acesso já é um avanço, mas é essencial garantir que os estudantes tenham condições de concluir sua formação com sucesso. Isso envolve assistência estudantil, apoio pedagógico, acolhimento, saúde mental, acessibilidade e melhoria das condições de vida acadêmica. Ao mesmo tempo, quero valorizar as pessoas que constroem a universidade diariamente, docentes, técnicos, estudantes e trabalhadores terceirizados, por meio de diálogo permanente, qualidade de vida, capacitação e valorização profissional.

  

A questão do transporte universitário tem sido uma das principais demandas. Que linha de ação o senhor tem para esse assunto?

O transporte é uma das questões mais urgentes para a permanência estudantil. Muitos estudantes enfrentam dificuldades diárias para acessar os campi. O problema do transporte é de suma importância, mas se apresenta de formas diferentes em cada campus. Por isso, agiremos com precisão para sanar essas dificuldades locais.

Nossa atuação será tanto interna quanto externa. Internamente, buscaremos aprimorar a gestão da frota e dos serviços já existentes. Externamente, construiremos uma agenda permanente com prefeituras, Governo do Estado, Governo Federal, parlamentares e iniciativa privada para buscar soluções estruturantes. Defendemos a ampliação das linhas de transporte público para os campi e a construção de políticas que garantam maior segurança, regularidade e acessibilidade no deslocamento dos estudantes.

 

 

"Quero valorizar as pessoas que constroem a universidade diariamente, docentes, técnicos, estudantes e trabalhadores terceirizados, por meio de diálogo permanente, qualidade de vida, capacitação e valorização profissional."

 

 

 

Outros temas apresentados são a implantação dos Restaurantes Universitários, infraestrutura própria e estrutura laboratorial. O que a gestão planeja para dar conta desses temas?

Esses temas fazem parte do processo de consolidação da universidade. Nosso compromisso é buscar recursos para viabilizar o funcionamento dos Restaurantes Universitários e discutir, junto à comunidade, o modelo mais adequado de operação. Já estamos coletando mais informações em uma segunda rodada da pesquisa de intenção de uso dos RUs. 

Da mesma forma, continuaremos atuando junto ao MEC para ampliar os investimentos em infraestrutura física, laboratórios, equipamentos e espaços acadêmicos. Entendemos que ensino de qualidade exige condições adequadas para atividades práticas, pesquisa, inovação e extensão, bem como disponibilidade orçamentária.

 

Na proposta da chapa Esperançar, a primeira proposta foi a gestão participativa e transparente. Como essa proposta está sendo posta em prática?

Ela começa pela escuta. Durante a campanha e a transição realizamos reuniões, visitas, diálogos e consultas com diferentes segmentos da comunidade universitária. Ainda estamos realizando agora na gestão, com a equipe nomeada, mais diálogo para marcar essa postura de modo constante.

Nossa intenção é institucionalizar esse processo por meio de agendas permanentes de diálogo, prestação de contas, divulgação de indicadores institucionais e fortalecimento dos espaços colegiados. Queremos que a comunidade acompanhe não apenas as decisões, mas também os critérios que orientam essas decisões.

 

 

Outra ideia apresentada foi estimular a inovação e o empreendedorismo acadêmico. Como a gestão pretende realizar essa proposta?

A inovação precisa estar conectada às vocações do território. Queremos fortalecer o Parque Tecnológico, as empresas juniores, as incubadoras, os programas de pesquisa aplicada e as parcerias com setores produtivos e organizações sociais, as licenciaturas.

Também pretendemos ampliar editais de apoio a projetos inovadores, estimular a cultura empreendedora entre os estudantes e fortalecer mecanismos de transferência de conhecimento e tecnologia. A inovação que defendemos é tecnológica, social, cultural e ambiental.

 

Uma das primeiras atividades após a posse foi o I Fórum Brasil-África. Como o senhor pensa a internacionalização da UFSB até 2030?

A internacionalização precisa deixar de ser uma ação pontual para se tornar uma política institucional. Nossa visão é construir uma internacionalização conectada ao território e às agendas globais.

As parcerias estabelecidas com instituições africanas refletem uma estratégia de fortalecimento das relações Sul-Sul. Quero ampliar a mobilidade acadêmica, a cooperação científica, os programas de dupla titulação e os projetos internacionais voltados a desafios comuns, especialmente nas áreas de biodiversidade, mudanças climáticas, educação, saúde, cultura e desenvolvimento sustentável.

Até 2030, queremos que a UFSB seja reconhecida internacionalmente pela qualidade da sua produção acadêmica e pela sua capacidade de gerar soluções para desafios locais e globais.

 

Do internacional para o território: como o senhor pensa a integração da UFSB ao Sul e Extremo Sul da Bahia, considerando os campi em Ilhéus, Porto Seguro e Teixeira de Freitas e incluindo o novo campus em Jequié?

Essa é uma pergunta muito importante. Quero que o território também possa nos ver como instituição. A partir disso a gente começa a entender que, para nós estarmos no território, precisamos nos integrar a ele. E cada campus tem uma característica única.

Se nós começarmos a analisar lá do extremo sul, Teixeira de Freitas tem uma potencialidade que é agronegócio, que tem uma expressão muito grande lá com a agricultura familiar e os grandes empreendimentos de celulose, cana de açúcar, café e as frutíferas também, que têm muita força local.

WhatsApp Image 2026 06 19 at 13.55.34 1Aí quando você sobe um pouco mais para Porto Seguro, você vai ter uma interface já saindo um pouco da agricultura de grande escala para um pouco mais de agricultura familiar. É uma área de grande valor ambiental, de muita riqueza florestal e oceânica. Você tem também a fruticultura muito forte em Porto Seguro, o território é vinculado aos povos originários, os quilombolas, a agricultura familiar potencializando localmente com a demanda muito grande da parte agrícola local. E outra coisa, tem uma interface entre Porto Seguro e Teixeira de Freitas com extração mineral de grafite, ali entre as duas áreas de abrangência da instituição. Um pouquinho mais ao norte, você já tem também outra extração, que é de sílica. O território é muito vinculado também ao turismo, pelas belezas naturais. Mas nenhum deles suplanta a agricultura naquela região.

Quando você sobe para Itabuna e Ilhéus - vamos fazer essa interface entre as duas por conta da nossa reitoria ser Itabuna e o campo ser em Ilhéus - você tem muito aquela potência da agricultura familiar, de certa forma, que é a indústria cacaueira, a suplementação de plantios e melhoria da genética que a gente sabe que é uma necessidade local que temos de apoiar. Mas também temos os povos originários, o turismo, a estrutura de saúde aqui é muito forte, temos o movimento do modal de transporte que vai acontecer na região. 

Quando você vai para Jequié, você já sabe que tem várias outras instituições que nos apoiam lá também. A gente já olha para um outro viés, que é também a outra agricultura do semi-árido. A gente tem que estar inserido num espaço que saia um pouco da área de floresta, da parte mata atlântica. No semi-árido a gente tem outra proposta. Lá também temos algumas das terras raras. Jequié hoje é um berço de buscas por essas terras raras. Então, se nós não estivermos antenados com o território e nos colocarmos à disposição do território, nós não vamos conseguir suplantar as necessidades sociais que a gente tanto quer que melhorem. Para além disso, a gente precisa ter uma interlocução tanto com as prefeituras locais, como o governo estadual, o governo federal e as ONGs e as empresas que estão ali. Então a gente precisa muito essa integração com a nossa instituição e com o território.

A identidade da UFSB está profundamente ligada ao território. Nossa missão é contribuir para o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental das regiões onde estamos inseridos.

Isso significa fortalecer o diálogo com prefeituras, movimentos sociais, povos indígenas, comunidades quilombolas, setor produtivo, escolas públicas e organizações da sociedade civil. O novo Campus Maria Felipa amplia essa responsabilidade e nos desafia a construir uma universidade ainda mais integrada à realidade baiana.

Queremos uma UFSB que seja referência nacional pela sua capacidade de produzir conhecimento de excelência sem perder sua conexão com as necessidades concretas das pessoas e dos territórios que atende. A universidade deve ser um espaço de formação, inovação, inclusão e transformação regional.

 

Para concluir: Quem é Fabrício Berton Zanchi?

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Eu sou um apaixonado pela educação e alguém dedicado ao desenvolvimento e à melhoria social.

Venho de uma origem humilde e sei, pela minha própria trajetória, que sem educação o desenvolvimento chega apenas para explorar os recursos, a sociedade e as pessoas, corroendo a cultura local e destruindo o direito à melhoria da vida. Com educação pública de qualidade, o desenvolvimento se torna inclusivo, fortalece identidades, valoriza os povos minoritários e abre oportunidades reais de emancipação social.

A educação mudou minha história e mudou minha forma de olhar a sociedade. Por isso, eu não vejo outro caminho que não seja investir em educação de qualidade como um bem comum. Mas é fundamental lembrar: para que a universidade cumpra esse papel, ela precisa de recursos, e a sociedade precisa compreender que faz parte dessa construção. A universidade não é apenas uma instituição isolada; ela é parte viva da comunidade. Quando a sociedade entende que apoiar a universidade é apoiar a si mesma, o resultado é uma transformação coletiva que se reflete em saúde, emprego, renda, cidadania e desenvolvimento tecnológico.

Onde há uma instituição pública forte, os resultados aparecem: melhora na empregabilidade, nos salários, no acesso a direitos básicos e no sentimento de pertencimento. Isso transforma cidades inteiras, especialmente no interior da Bahia, onde a presença de uma universidade federal significa novas oportunidades, infraestrutura e esperança para comunidades muitas vezes esquecidas.

Eu acredito que discursos que desvalorizam a universidade pública ignoram o impacto real que ela tem na vida das pessoas. Basta observar o efeito da implantação de uma instituição federal em municípios pequenos: surgem novas cadeias produtivas, projetos de pesquisa e inovação, extensão universitária e desenvolvimento regional. É uma universidade que não apenas forma cidadãos, mas que cria soluções, abre caminhos e propõe novas adaptações para os desafios do futuro, sempre incluindo a sociedade, empresas, industrias e dando voz às comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e demais grupos que historicamente foram marginalizados.

A UFSB, para mim, deve ser motor de transformação social. Ao articular ensino, pesquisa, extensão e inovação, ela gera desenvolvimento sustentável e inclusão. Ao se conectar com povos indígenas, comunidades quilombolas, movimentos sociais e setor produtivo, a UFSB fortalece o tecido social e impulsiona o crescimento regional.

Eu quero o melhor para a sociedade e sei que a educação pública de qualidade é o único caminho capaz de transformar a Bahia e o Brasil. Mas essa transformação só será possível se houver investimento contínuo e se a sociedade entender que ela é parte dessa melhoria. A universidade precisa de recursos, mas também precisa do reconhecimento e da defesa da comunidade. E é aqui que eu reafirmo meu compromisso: eu dou valor ao serviço público, porque ele é a espinha dorsal da democracia e da justiça social. O serviço público garante direitos, promove dignidade e sustenta o desenvolvimento. Por isso, palavras de ordem como "Educação é investimento", "Serviço público é patrimônio" e "Universidade transforma vidas" precisam ecoar em toda a sociedade. Defender a universidade e o serviço público é defender o futuro da Bahia e do Brasil.

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