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Pesquisadores da UFSB e UESC revelam diversidade viral em insetos predadores utilizados no controle biológico

Publicado: Terça, 27 de Outubro de 2026, 14h33 | Última atualização em Terça, 27 de Outubro de 2026, 14h47 | Acessos: 137

A caracterização dos genomas virais presentes em joaninhas e crisopídeos aponta para a necessidade de mais estudos voltados ao entendimento dos vírus como parte dos ecossistemas agrícolas.

 

Luísa Morena Bocht*  

joaninha

 

Uma pesquisa liderada por cientistas vinculados à Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) identificou uma diversidade de vírus ainda pouco conhecida em insetos predadores utilizados no controle biológico de pragas agrícolas. O estudo, publicado no periódico Virology sob o título Viral diversity in predatory insects used for biological control: Insights from a multi-country meta-viromic analysis [Diversidade viral em insetos predadores utilizados no controle biológico: perspectivas de uma análise metaviromica multicontinental], analisou 21 bibliotecas públicas de sequenciamento de RNA de oito espécies de insetos e identificou 41 possíveis novos vírus e 13 vírus já conhecidos.

O trabalho é assinado por Gabriela B. Caldas-Garcia, Ícaro Santos Lopes e Eric Roberto Guimarães Rocha Aguiar. Gabriela é egressa do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da UESC; Ícaro é vinculado ao Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG; e Eric é coordenador do Laboratório de Bioinformática de Vírus da UESC e do Centro de Formação em Tecno-Ciências e Inovação (CFTCI-UFSB). As amostras analisadas eram provenientes da Alemanha, Áustria, Bélgica, China, Estados Unidos e Reino Unido.

Entre os insetos estudados estão joaninhas, crisopídeos e a mosca predadora de afídeos, popularmente conhecidos como pulgões, organismos utilizados por sua capacidade de se alimentar de pragas agrícolas. A descoberta de dezenas de vírus até então desconhecidos chama atenção para uma dimensão ainda pouco explorada desses agentes de controle biológico: os microrganismos que eles carregam.

Segundo Gabriela Caldas-Garcia, o número de novos vírus identificados é surpreendente, mas também evidencia uma lacuna no conhecimento científico. A pesquisadora explica que os estudos sobre vírus em insetos ainda são muito concentrados em espécies de importância médica, como os mosquitos. Dessa forma, investigar outros representantes da classe Insecta, a mais diversa entre os grupos animais, pode revelar uma diversidade viral ainda desconhecida.

  

Vírus de pulgões encontrados em predadores

Coccinella septempunctata larva eating aphidsUm dos resultados que mais chama atenção é a identificação do vírus da paralisia letal do pulgão (ALPV) em quatro espécies de predadores e em três países. O vírus é encontrado em diferentes espécies de pulgões, que fazem parte da alimentação dos insetos analisados.

A hipótese levantada pelos pesquisadores é que a presença do vírus nos predadores esteja relacionada à alimentação. Isso significa que os insetos podem ter adquirido o vírus ao consumir pulgões infectados. No entanto, a presença do material genético do vírus não é suficiente para afirmar que ele esteja se multiplicando dentro do predador.

“Para constatar a replicação e persistência do vírus nos predadores, ensaios de laboratório serão necessários”, explica Gabriela.

Essa distinção é importante porque o estudo foi realizado por meio de análises bioinformáticas de dados de sequenciamento. A metodologia permite identificar fragmentos genéticos associados a vírus, mas algumas hipóteses precisam ser verificadas por meio de experimentos.

 

 Uma descoberta que também ajuda a entender o papel das joaninhas

A pesquisa também identificou vírus associados a plantas, incluindo o vírus do mosaico da cana-de-açúcar, em amostras de joaninhas. A descoberta poderia levantar a dúvida sobre uma possível participação desses predadores na transmissão de doenças agrícolas.

Segundo Gabriela, entretanto, as evidências disponíveis não indicam que as joaninhas estejam atuando como vetores, ou seja, organismos capazes de transmitir esses vírus às plantas. Uma das principais hipóteses é justamente o contrário: ao se alimentarem de insetos que transmitem vírus às plantas, como os pulgões, as joaninhas podem interromper o ciclo de transmissão e reduzir os danos às culturas.

Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que são necessários estudos experimentais para compreender se esses vírus conseguem infectar os predadores e quais efeitos poderiam provocar nesses organismos.

 

A bioinformática acelera a descoberta de novos vírus

Uma das características do estudo é que os pesquisadores não realizaram novas coletas em campo. A investigação utilizou dados de sequenciamento de RNA disponíveis em bancos de dados científicos públicos.

Para Ícaro, essa estratégia permite reunir informações produzidas em diferentes partes do mundo e realizar análises amplas com custos consideravelmente menores do que os de pesquisas experimentais tradicionais. A disponibilidade de grandes volumes de dados genéticos também possibilita investigar interações ecológicas que podem ter impactos ambientais antes mesmo de serem observadas em determinadas regiões.

Por outro lado, existem limitações. Como os pesquisadores não produziram os dados originais, não é possível controlar completamente a qualidade das informações disponíveis. Além disso, algumas descobertas não podem ser confirmadas apenas por análises computacionais e precisam de experimentos laboratoriais.

A bioinformática, contudo, vem modificando a velocidade das pesquisas virológicas. Com o avanço do sequenciamento genético e da capacidade de processamento dos computadores, tornou-se possível identificar vírus conhecidos e possíveis novas espécies virais em grandes conjuntos de dados em questão de horas.

virus de joaninhas

Distribuição dos vírus de acordo com o grupo de inseto predador (A) e por taxonomia viral (B). Vírus de joaninhas estão representados em rosa, vírus de crisopídeos, em azul; vírus da mosca predadora de afídeos, em verde. A. Diagrama de Venn com as quantidades de vírus identificados para cada grupo; B. Classificação taxonômica dos vírus por família. Os vírus já descritos anteriormente foram representados com um asterisco acima das barras.

 

Conhecer os vírus também é importante para a conservação

A descoberta ganha outra dimensão quando considerada a importância ecológica das joaninhas e de outros insetos predadores.

Esses organismos participam do equilíbrio dos ecossistemas e são utilizados no controle natural ou aplicado de diversas pragas agrícolas. Por isso, compreender quais vírus estão presentes nessas espécies pode ajudar a identificar possíveis ameaças e também a entender melhor as relações entre os organismos que compõem os ambientes agrícolas.

De acordo com Ícaro, conhecer a diversidade viral associada às joaninhas é fundamental para identificar quais vírus estão presentes em diferentes regiões e, a partir dessas informações, desenvolver estratégias de mitigação e contenção de possíveis infecções.

A questão se torna ainda mais relevante diante das mudanças ambientais. Vírus estão entre os patógenos, agentes capazes de causar doenças, que podem afetar diferentes espécies de insetos capazes de afetar diferentes espécies de insetos e, associados a outros fatores ambientais, podem contribuir para alterações nas populações e nos ecossistemas. Por isso, mapear essa diversidade representa uma etapa importante para compreender possíveis ameaças à biodiversidade.

 

A joaninha-arlequim e a circulação de vírus

A joaninha-arlequim, espécie invasoraOutro resultado analisado no estudo envolve a joaninha-arlequim (Harmonia axyridis), uma espécie invasora. Um vírus associado à espécie, o Harmonia axyridis virus 1, foi identificado também em espécies nativas de joaninhas na China.

Embora a descoberta possa inicialmente sugerir uma possível transmissão do vírus pela espécie invasora, Eric Aguiar explica que os dados disponíveis não permitem estabelecer essa relação.

O vírus pertence a um grupo de vírus específicos de insetos que já foi encontrado com alta prevalência em espécies da mesma família em diferentes partes do mundo. Segundo o pesquisador, a hipótese mais provável é que esse vírus já circule entre esses insetos há bastante tempo e faça parte de sua microbiota residente (conjunto de microrganismos que vive associado ao organismo), tendo evoluído junto com os hospedeiros.

Assim, a simples presença do mesmo vírus em diferentes espécies não é suficiente para estabelecer que uma espécie invasora tenha sido responsável pela transmissão.

 

Do laboratório ao campo: ainda há um longo caminho

A pesquisa também levanta possibilidades para o uso de vírus no controle de pragas. Uma delas seria investigar se vírus capazes de enfraquecer pulgões poderiam ser utilizados em conjunto com seus predadores naturais.

O uso de vírus como agentes de controle biológico já ocorre na agricultura, especialmente com espécies de baculovírus utilizadas contra lagartas. Entretanto, a aplicação de uma nova estratégia exige uma série de etapas antes de chegar ao campo.

Eric explica que seria necessário avaliar os efeitos dos vírus sobre os possíveis organismos expostos, incluindo plantas e polinizadores; realizar testes de eficácia e virulência; verificar sua persistência e estabilidade no ambiente; e, posteriormente, conduzir experimentos em condições de semi-campo e campo.

No caso específico desta pesquisa, existe ainda uma limitação importante: como o trabalho foi desenvolvido exclusivamente com dados públicos e análises bioinformáticas, os pesquisadores não possuem acesso às amostras originais para avançar diretamente para esses experimentos.

Isso não diminui a importância da descoberta. Ao contrário, o levantamento gera hipóteses que podem ser investigadas posteriormente por outros grupos de pesquisa.

 

Biossegurança também entra em discussão

A identificação de dezenas de vírus desconhecidos em insetos utilizados comercialmente no controle de pragas também chama atenção para a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a sanidade desses organismos. Para Eric Aguiar, as práticas de controle biológico podem incorporar ferramentas de monitoramento molecular capazes de verificar a presença de vírus nas linhagens comerciais de predadores e também nas presas utilizadas para alimentar esses insetos durante sua criação.

A proposta é evitar que patógenos sejam transportados silenciosamente para novos ambientes e avaliar se infecções virais podem interferir na capacidade dos predadores de controlar as pragas. Nesse contexto, o conhecimento sobre os vírus não serve apenas para identificar possíveis riscos. Ele também pode contribuir para tornar as estratégias de controle biológico mais bem compreendidas e monitoradas.

Embora a continuidade da pesquisa não esteja diretamente voltada às joaninhas, a equipe pretende aprofundar essa linha de investigação em outros sistemas agrícolas.

O próximo passo envolve a coleta de insetos associados ao cacaueiro, buscando compreender melhor os organismos presentes nesse microambiente e a dinâmica dos microrganismos envolvidos nas interações entre insetos e plantas. A investigação poderá ajudar a entender como esses microrganismos participam de processos relacionados à saúde do cacaueiro, incluindo a transmissão e a disseminação de patógenos.

Mais do que revelar 41 possíveis novos vírus, portanto, o estudo amplia uma pergunta: o que ainda não sabemos sobre os microrganismos que circulam entre os insetos que ajudam a proteger nossas plantações?

A resposta depende de novas análises, experimentos e da continuidade da investigação sobre a diversidade viral presente nos ecossistemas agrícolas.

 


*Luísa Morena Bocht é discente do curso de Mídias Digitais e extensionista do projeto UFSB Ciência: Divulgação Científica em Rede. Texto produzido sob supervisão de Heleno Rocha Nazário

 

Para mais informações:
Caldas-Garcia GB, Lopes ÍS, Aguiar ERGR. Viral diversity in predatory insects used for biological control: Insights from a multi-country meta-viromic analysis. [Diversidade viral em insetos predadores utilizados no controle biológico: perspectivas de uma análise metaviromica multicontinental]. Virology, 2026, v. 623, 111022. DOI: 10.1016/j.virol.2026.111022.

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