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Projeto de pesquisa investiga a arquitetura vernacular praieira de Olivença

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Segunda, 05 de Agosto de 2019, 14h00 | Última atualização em Sexta, 18 de Outubro de 2019, 16h05 | Acessos: 819

   Os processos e os materiais usados pela população da comunidade tradicional da Aldeia Indígena Itapoã Tupinambá, no distrito de Olivença, em Ilhéus para construir suas casas são o tema do projeto de pesquisa Arquitetura vernacular de edificações habitacionais como expressão ambiental e cultural no Litoral Sul do Estado da Bahia, Brasil, proposto e coordenado pela professora, arquiteta e urbanista Sílvia Kimo Costa, vinculada ao Centro de Formação em Ciências Agroflorestais da UFSB, no Campus Jorge Amado, em Itabuna.

   O assunto interessa devido à prática sustentável empregada nesse tipo de construção, fonte potencial de soluções de baixo custo para problemas como o conforto térmico e a umidade, por exemplo. Interessa também pelo cenário de gradual substituição dessas construções pelas residências feitas com alvenaria, marcando mudanças na cultura e no ambiente em que vivem as comunidades tradicionais.

   O projeto foi contemplado com bolsa de Iniciação Científica (IC) pelo Programa de Iniciação à Pesquisa, Criação e Inovação (PIPCI), gerido pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPPG). A professora Sílvia fala a respeito do trabalho desenvolvido pela equipe até o momento e explica a relevância do assunto.


De que trata a pesquisa?

   A pesquisa aborda o processo construtivo de habitações vernaculares considerando aspectos ambientais e culturais em Comunidades Tradicionais no Litoral Sul do Estado da Bahia, Brasil e está registrada/ autorizada pelo CONEP (Plataforma Brasil) sob o CAAE Processo nº: 73793217.4.0000.5526, Parecer nº 2.552.460/ 2018.

   As atividades foram organizadas em dois planos de trabalho. O PT1, iniciado no período 2016-2017, tratou da identificação e análise descritiva do processo construtivo vernacular. A discente Soraia Costa dos Santos, que hoje cursa o 2º Ciclo no Bacharelado em Medicina no CPF, foi a bolsista de Iniciação Científica que colaborou nesse plano - que resultou em um primeiro artigo intitulado Arquitetura Vernacular ou popular brasileira: conceitos, aspectos construtivos e identidade cultural local, publicado na revista Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas. Já o PT2, ainda em andamento, é uma pesquisa-ação objetivando a melhoria de tal processo por meio da capacitação da comunidade quanto ao uso de tecnologias bioconstrutivas, que está sendo realizado com o apoio do engenheiro civil e discente da Especialização em Engenharia Ambiental Urbana da UFSB, Leandro Ricardo dos Santos Souza. Integram a equipe a partir de 2018, além de Leandro, a discente Calline Chaves de Jesus, bolsista de IC, que está encerrando as atividades de um Plano de Trabalho sobre avaliação preliminar do ciclo de vida de materiais que é vinculada à pesquisa, e a geógrafa e discente do Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-raciais, Vanessa Rodrigues.

   Em termos conceituais, a Arquitetura Vernacular é aquela cujo processo construtivo de edificações envolve a extração e utilização de materiais oriundos dos recursos naturais locais, assim como estratégias arquitetônicas bioclimáticas intuitivas. A construção ocorre de maneira coletiva e o conhecimento “do construir vernaculamente” é passado de pai/ mãe para filha/ filho através das gerações.

   Por esse motivo, as características de tal arquitetura dependem de e refletem condições geográficas, climáticas e aspectos socioculturais e ambientais específicos, tornando-a singular em diferentes partes do mundo. Em comunidades tradicionais brasileiras, como as aldeias indígenas, o construir vernaculamente é extremamente importante para a manutenção cultural da comunidade e envolve rituais de celebração.

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Cobertura de uma das casas estudada pela equipe em Olivença (esq.) e detalhe de construção com técnicas tradicionais (dir.). Essas técnicas são relacionadas 
à Arquitetura Vernacular Praieira (Acervo pessoal Sílvia Kimo Costa)
 

   

   Considerando o exposto, o primeiro Plano de Trabalho (PT1) objetivou identificar, catalogar e analisar habitações vernaculares construídas em comunidades tradicionais entre os municípios de Itacaré e Una, BA. Partiu-se da hipótese de que o processo construtivo vernacular vem sendo substituído por tecnologias construtivas convencionais e materiais tais como: o concreto, argamassa à base de cimento e tijolos cerâmicos. A substituição de um processo construtivo por outro não só interfere na preservação do habitus cultural das comunidades tradicionais como também potencializa o impacto ambiental advindo da construção civil.

   A Aldeia Indígena Itapoã Tupinambá, localizada no Distrito de Olivença, Ilhéus, Bahia, foi escolhida para coleta das informações por ser a comunidade tradicional que apresentou a maior quantidade de habitações identificadas como vernaculares na área de abrangência da pesquisa. A tipologia construtiva predominante, na referida aldeia, é a Arquitetura Vernacular Praieira, caracterizada pela estrutura em pau-a-pique com cobertura de piaçava.

   Pontua-se que os principais resultados do referido Plano de Trabalho foram organizados no artigo Sustentabilidade do processo construtivo habitacional vernacular na Aldeia Indígena Itapoã Tupinambá de Olivença, BA, Brasil, em prévia da edição da Revista Ibero-Americana de Ciências Ambientais.

 

Qual a contribuição dos resultados obtidos no plano de trabalho para o avanço do projeto?

   O Plano de Trabalho (PT1) gerou uma análise descritiva do processo construtivo das habitações, possibilitando compreender sua importância para a sustentabilidade ambiental local e a necessidade, não só do registro, mas também de sua preservação, uma vez que, infelizmente, constatou-se que a hipótese da pesquisa vem sendo corroborada e aos poucos as habitações estão sendo reconstruídas com tecnologia e materiais convencionais.

   Nesse contexto, espera-se que as ações de capacitação da comunidade, previstas no Plano de Trabalho 2 (PT2), viabilizem a melhoria do processo construtivo das habitações por meio da introdução de tecnologias da bioconstrução, contribuindo para reverter tal cenário. 

 

Como foi feita a pesquisa?

    As atividades do PT1 ocorreram em três etapas:

   Etapa 1: Mapeamento das habitações vernaculares entre os municípios de Itacaré e Una, BA, através de viagens realizadas entre agosto de 2017 e fevereiro de 2018. Foram catalogadas cerca de 50 habitações coletivamente construídas em Pau-a-Pique na Aldeia Indígena Itapoã Tupinambá de Olivença.

   Etapa 2: Diário de campo (esboços das habitações e relatório fotográfico) e análise das habitações, considerando: a) Posição da habitação em relação à incidência solar e direção do vento; b) Design da planta da habitação; c) Tamanho e locação de janelas e portas permitindo ventilação cruzada; d) Materiais de construção utilizados visando melhor desempenho térmico com baixo teor energético agregado; e) Tipo de estrutura do telhado e cobertura; f) Jardins, arbustos e árvores próximas às habitações para promover sombreamento e moderação do microclima.

   Etapa 3: Entrevista semiestruturada com grupo focal constituído pelos construtores anciãos da aldeia, que são os responsáveis por transmitir o conhecimento acerca do processo construtivo vernacular das habitações para as novas gerações.

 

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Estudo envolveu o contato direto com as comunidades para verificar as habitações
e as práticas construtivas (Acervo pessoal Sílvia Kimo Costa)

 

Qual a importância da pesquisa?

Contribuir para a preservação cultural e ambiental do processo construtivo vernacular das habitações em comunidades tradicionais que se encontram na área de abrangência da pesquisa.

 

O que os resultados indicam/informam?

   Os resultados permitiram concluir que o sentido de comunidade e compromisso com a preservação do Meio Ambiente e cultura local perpassa por todo processo de planejamento e construção das habitações. Esse processo envolve solidariedade comunitária, rituais de celebração, compartilhamento de conhecimento através das gerações e o estabelecimento de uma conexão contínua com a Natureza.

   Nesse sentido, a introdução de tecnologias convencionais de construção civil altera a participação da comunidade como um todo, porque são poucos os mais qualificados para trabalhar com o processo construtivo em alvenaria de blocos cerâmicos e argamassa de cimento e areia. A construção com materiais naturais envolve toda a comunidade, desde a extração da matéria prima à construção da edificação (confecção da estrutura, paredes e cobertura). Esse processo é inviabilizado quando se utilizam materiais convencionais. Geralmente tijolos cerâmicos, sacos de cimento e areia são adquiridos por meio da compra e entregues na aldeia, onde ficam empilhados próximos às habitações construídas de maneira vernacular, que serão desmontadas para serem reconstruídas com os materiais convencionais. O desmonte da habitação é de responsabilidade do morador, assim como a reconstrução da mesma. 

   Os impactos ambientais ocorrem quando os materiais naturais são substituídos por materiais cujo ciclo de vida por si só causa impacto ambiental, como é o caso do tijolo cerâmico e do cimento, que possuem alta pegada de carbono. Além disso, o conforto higrotérmico das habitações (conforto ambiental) torna-se ineficiente do ponto de vista energético, pois os materiais convencionais tornam os ambientes ainda mais quentes, não sendo possível moderar o microclima apenas com a ventilação cruzada por meio das portas e janelas. 

 

Equipe responsável pela pesquisa

Coordenação: Professora Drª Silvia Kimo Costa - arquiteta e urbanista lotada no Centro de Formação em Ciências Agroflorestais (CFCAf - CJA)

Leandro Ricardo dos Santos Souza - Eng. Civil e discente do curso de especialização em Engenharia Ambiental Urbana da UFSB

Vanessa Rodrigues  - Geógrafa e discente do Mestrado Profissional em Ensino e Relações Étnico-raciais (CJA-UFSB)

Soraia Costa dos Santos - discente do Bacharelado em Medicina (CPF/UFSB)

Calline Chaves de Jesus - discente do curso de 2o Ciclo em Engenharia Florestal (CFCAf - CJA) e Bolsista IC

 

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